Quarta-feira, 21 de Fevereiro de 2007

Minho

 

Saudade é ouvir-te quando dizias que o teu sonho era teres uma quinta.

Ficares a falar horas, dos sítios onde havia caça!

Recordas-te?

Íamos juntos e mandavas-me calar enquanto ias marcando os céus por onde vias passar bandos de tordos.

 

Saudade era querer agora estar calada porque tu mo pedias, para não espantar as presas!

Mas tu eras um garoto e eu a teu lado, outra, a fazer um esforço para não falar…

Durava pouco tempo e tu zangavas-te comigo e lá continuava eu a correr à tua frente, a parar, a dizer que olhasses, que iam ali tantos passarinhos e tu a dizeres-me que aqueles não, que aqueles não eram para caçar.

 

Saudade é estar aqui a pensar no que nos dizias tanta vez.

Penso-te aí, numa quinta, a que idealizavas, com ribeiro, árvores de fruto, casa de pedra, e uma mesa grande, cá fora, para todos nós, os netos, tantos, que ias ter!

Saudade é sorrir, enquanto te imagino feliz e que essa quinta seja a mais bonita de todas.

Os sonhos realizam-se sempre, não é, Pai?

Saudade é ter a certeza que acreditaste sempre nos teus e que nos dizias que nunca deixássemos de sonhar!

Saudade? É não conseguir dizer mais nada senão que sinto tanto a tua falta, Pai!

 

 

Queria ser vilarejo,

Aldeia de casas caiadas,

Sardinheiras nas janelas,

Cheiro a flor de campo pelo chão!

Ser a fonte,

Beber de água,

Ser ribeirinha a correr,

Regadio de muitos prados.

 

Queria ser o “bom dia!”,

Saudação bonacheirona,

Queria ser banco da venda,

Ser conversa,

Ser velhinho,

A sua boina,

Ser o grupo que ali se encontra,

Um jogo de dominó,

Uma boa gargalhada,

Ser uma história de avó,

Alvos fios de cabelo,

Ser semblante enrugado,

Ser olhos, ouvidos de neto…

 

Ser o sabor do estio,

O sol deitado pelos muros,

O chiado de duas rodas,

O cantar de carros de bois,

Ser o portão de uma quinta

Aberto de par em par,

Ser muitas arvores de fruto!

 

Ser o recreio de escola

Ser meninos a correr,

Ser uma cantiga de roda,

Meninas de cabelo aos cachos,

Ser a alegria de uma boneca de trapos

Ser fisga de rapazinho,

Ser um pássaro, ser um ninho.

Ser tanque de água gelada.

Ser roupa branca a secar.

 

Queria ser feira,

Ser toalha,

Cântaro de barro,

Jarrinha,

Roupa interior colorida,

Gaiola de passarinho,

Ser morena,

Ser trigueira,

Ser tamancos, ser sapatos,

Chinelo de meter o dedo,

Ser tecidos,

Ser cadeiras, escaninhos,

Armários, mesas, panelas,

Discussão de lavradeiras,

Cestos de vime entrançado,

Ser a foice,

Ser ancinho,

O cabo de uma enxada,

Alguidares, jarros e loiça,

Vasos a abarrotar de flores,

Bebé no meio de mantas.

 

Ser domingo,

Saída da missa,

Ser chão do adro da igreja,

Um bonito fato engomado,

Ou vestido vindo da França…

O casamento a preceito,

Boda à sombra da latada,

Ser riso da jovem casada,

Ser dela o noivo bonito,

O galanteio guloso,

Uma flor na lapela.

Ser desejo, ser anseio,

Da vontade que não acaba

Ser só dele, dali a nada…

 

 

Queria ser um Arraial,

Foguetes de muitas cores,

Mesas com bancos corridos,

Tendinha de pano-cru.

Ser cheiro a sardinha assada,

Pão ensopado em azeite,

Vinho a pintar a tigela,

Boroa de forno de lenha,

Fêvera a grelhar no carvão…

 

Queria ser festa animada,

Um coreto engalanado,

Um rancho de folclore,

Uma chula, um vira do Minho,

Ser a dança ou rodopio,

Ser andar de braço dado,

Ser voz da rapariga animada

O olhar de moço cobiçado

Um beijo dado à socapa,

Ser lenço de namorados.

 

Ser ainda a última cantiga,

Ser as “santas noites!” a todos,

A porta da casa encostada,

Ser do sono a recompensa…

Ser o silêncio satisfeito

Ou céu pejado de estrelas.

 

Eu queria ser madrugada,

O galo a cantar no poleiro,

O chilreio da andorinha,

Ser povoação, ser um largo,

Ser aquele vilarejo,

Ser todas as casas branqueadas,

Um gato a dormir no colo,

A cortina da janela,

Ser caminho,

Ser um passeio.

Eu queria ser um ano,

Ser um mês,

Ser só um dia,

Ser uma hora ou um minuto,

Ou ainda que por menos tempo,

Ser vida a andar com vagar,

Bordada a mil e uma cor,

Na barra de um avental!

 

publicado por Cris às 21:43
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